
Depois de um grande trabalho de apuração, chega às livrarias no fim desta semana o aguardado livro “Festa Infinita – o entorpecente mundo das raves”, do jornalista Tomás Chiaverini. A obra tem tudo para se tornar uma das grandes referências contemporâneas do universo raver no Brasil, já que, como diz o próprio autor nesta entrevista ao Psyte, reflete com imparcialidade sobre os aspectos desse movimento.
São histórias humanas e profundas de um jornalista que não teve vergonha em esmiuçar, em sua essência, a alegria sem fim que existe nas festas rave. Sem nunca ter ido a uma rave antes do projeto, Tomás conheceu este mundo por acaso, mas resolveu mergulhar a fundo neste tema. Esta visão holística do universo raver pode ser conferida nas 360 páginas (16 delas com fotos) do livro “Festa Infinita – o entorpecente mundo das raves”.
Veja a entrevista que o Psyte fez com o autor do livro, Tomás Chiaverini.
Pode descrever um pouco sobre sua trajetória no jornalismo?
Tomás - Foi um começo bem maluco. Eu me formei no meio do ano, e como não tinha nenhum estágio ou oportunidade à vista, raspei minha poupança e me descambei para a Amazônia. Passei cinco meses mochilando e procurando pautas. Consegui algumas matérias bacanas, como uma em que acompanhei a Força Aérea durante uma missão humanitária de uma semana pelo interior da floresta.
Quando voltei, continuei a maluquice. Resolvi escrever um livro. Depois de me disfarçar de desabrigado e ser recolhido pela prefeitura, de dormir embaixo do viaduto do Glicério entre outras maluquices, consegui publicar o “Cama de Cimento”, em 2007. Nessa época eu já havia entrado no programa de treinamento da Folha de S. Paulo, onde trabalhei por cerca de dois anos, até começar a apuração do Festa Infinita.
Qual é a idéia principal de “Festa Infinita – o entorpecente mundo das raves”?
Tomás - A idéia é criar um registro deste movimento contracultural que dominou uma parte considerável do planeta sem que ninguém percebesse. É criar um livro gostoso de ler, profundo, humano e reflexivo.
Antes de começar o projeto, você nunca havia ido a uma festa rave. O que instigou você a desvendar este mundo? Qual foi sua motivação para escrever o livro?
Tomás - Pois é. A idéia de escrever sobre o assunto surgiu por acaso. Eu estava de férias na Bahia e conheci um pessoal que estava indo para o Universo Paralello e me apresentou ao mundo das raves.
O fato de eu não ser um aficionado pelo movimento, tem gerado muitas críticas antecipadas, mas, como jornalista, eu acredito que isso seja uma vantagem. Acho que pelo distanciamento que eu tinha com o assunto, pude perceber todos os aspectos desse movimento com muito mais imparcialidade e liberdade.
E o que você aprendeu com este universo? Que aspecto lhe chamou mais a atenção?
Tomás - Olha, é muito difícil dizer o que aprendi ao longo de um ano, porque os aprendizados acontecem de forma muito lenta e gradual. Mas o que me surpreendeu muito foi ver dez mil pessoas acampadas por dez dias no Universo Paralello, tendo à disposição todas as drogas que o homem foi capaz de inventar, e convivendo em perfeita harmonia.
Muitos entusiastas dizem que as raves são os Woodstocks de hoje. Você acredita que existe este paralelo?
Tomás - Acredito que há, sim, um paralelo. Mas talvez haja mais diferenças do que coincidências. Eu falo um pouco sobre isso no texto. Como tenho 28 anos, me sinto à vontade para escrever sobre a juventude atual, da qual faço parte. E creio que hoje estamos muito mais perdidos do que nossos pais estavam nas décadas de 1960/1970. Naquela época, a juventude saía às ruas, tinha ideais muito claros e estava inserida na política. Eram capazes de virar o mundo de pernas pro ar, como aconteceu em maio de 1968.
Hoje, a juventude está muito dispersa e mesmo quando há algo que nos una, como a cultura raver, é difícil enxergar um movimento organizado, que tenha aquela consciência grupal, e que realmente se organize para reivindicar qualquer coisa. A própria identidade como geração parece perdida em meio a novos modismos hypes, rótulos e tendências.
É verdade que você chegou a experimentar substâncias ilícitas para conseguir entender melhor estas festas? Se sim, porque você achou que isto era necessário?
Tomás - Sim, experimentei ecstasy. Para explicar por que isso foi necessário, primeiro é preciso que joguemos fora esse ranço de hipocrisia que impregna nossa sociedade. De um lado, temos os ravers que arrepiam os dreadlocks quando alguém fala que a maior parte dos que vão às festas se droga, o que é verdade. Do outro lado, temos os setores mais reacionários da sociedade, que resumem as festas a ocorrências policiais, o que não é verdade.
O fato é que há, sim, muita droga no universo raver, e que essas drogas fazem parte da origem desse movimento. Mas isso não é o fim do mundo. O movimento hippie também era colorido pelas tintas do ácido lisérgico e o mundo não acabou por isso.
Então, se o ecstasy tem toda essa importância para as festas, achei que a única maneira de entender esse movimento de verdade, era experimentar o que quase todos os frequentadores de rave experimentam. E foi uma experiência mais do que válida, porque eu comecei a ver as festas de uma outra forma, e creio quem por isso, tenha conseguido passar para o leitor uma visão muito mais ampla e plural.
A popularização das festas rave no Brasil nesta década trouxe como conseqüências a explosão no número de eventos e a absorção de parte de um público vindo de outros estilos musicais. Você acha que o crescimento das festas comerciais pode prejudicar o entendimento da cultura trance?
Tomás - Aqui volto a usar o exemplo dos hippies. O movimento que nasceu como uma contracultura anti-capitalista foi rapidamente absorvido pela sociedade de consumo e transformado em mercadoria. É um fenômeno recorrente no nosso tempo, que já aconteceu com o universo raver também. Não há como evitar. E essa massificação fatalmente leva à banalização.
Em janeiro, o Psyte mostrou um trecho de outro livro sobre a cultura da música eletrônica, intitulado “A Música do Tempo Infinito”, do psicanalista Tales A. M. Ab’Saber. Nele, o autor cita termos como “alucinose generalizada”, “império fetichista da moda” e “autoerotismo social”. Você acredita que as raves devem ser linkadas a este aspecto da vida psíquica e social do ser humano contemporâneo? Ou as raves são apenas uma festa como outra qualquer?
Tomás - Quando Ab’Saber lançou esse livro, eu já estava na reta final do Festa Infinita, então não tive tempo de ler a íntegra do texto. Li alguns trechos publicados pela imprensa e achei bem interessantes. E acho que as festas refletem, sim, as características psico-sociais da nossa sociedade. A busca por experiências cada vez mais intensas, a individualidade que é provocada pela música alta e pelas drogas sintéticas, o culto ao corpo, a banalização de doutrinas religiosas e filosóficas são características fortes da nossa sociedade e que estão claramente presentes nas raves.
Qual é a sua posição quanto aos projetos de lei de regulamentação das raves? Você acredita que isto enfraquecerá este tipo de entretenimento?
Tomás - Sou contra os projetos de regulamentação que estão tramitando, porque eles não pretendem regulamentar e sim proibir as raves. E proibições autoritárias como essa não levam a nada a não ser à desobediência. Afinal, é do conhecimento geral o fato de que o avanço das sociedades é medido por seu grau de liberdade.
Além disso, os projetos, da forma que estão colocados, podem facilmente ser considerados inconstitucionais num tribunal, como mostro na parte do livro que me dedico ao assunto. Então, creio que se os produtores se organizarem e investirem no assunto, eles podem derrubar as leis que estão sendo propostas e talvez encontrar um meio termo.
“Festa Infinita – o entorpecente mundo das raves"
Autor: Tomás Chiaverini
Editora: Ediouro
Páginas: 320
Quanto: R$ 49,90
Onde comprar: nas principais livrarias ou pelo telefone (21) 3882 8416
Fonte: psyte.com.br

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